....”Mais ainda cheguei à conclusão que o mais importante não é ter uma crença religiosa, mas sim ser-se um bom ser humano.”
“É a razão pela qual afirmo, por vezes, que talvez possamos dispensar a religião. Mas o que não podemos dispensar são as qualidades espirituais básicas.”
Dalai Lama: Ética para o Novo Milénio
Sou crente, não religiosa.
Tenho um fascinio sem limites por religião. E isso porquê? Porque sem pretender ser tão extremista como Karl Marx que definiu religião como “o ópio do povo”, a verdade é que a religião esteve sempre lado a lado na história da humanidade e foi muita vezes um instrumento culminante em certas épocas.
Nasci de uma familia católica, fui batizada, frequentei a catequese, fiz a comunhão e fui até catequista durante parte da minha adolescência.Mas foi precisamente durante essa altura que comecei a questionar as minhas crenças. Não foi um impulso de rebeldia, próprio dessas idades, foi uma reflexão constante, sobre os valores que eu acreditava estarem associados a Deus, e os valores com que me defrontava dia a dia , daqueles que se intitulavam representantes da Igreja.
Desde essa altura que deixei de me apelidar de católica e decidi viver a minha vida afastada de qualquer grupo ou seita religiosa.
Uns definem-me como agnóstica outros como ateía. Recuso completamente a definicão de ateía, não me incomoda muito que me definam como agnóstica, sendo que o agnósticismo se opõe à possibilidade de a razão humana poder conhecer entidades divinas ou sobrenaturais. Mas também defendem que se não é possivel provar racionalmente a existência de Deus, é igualmente impossivel provar a sua inexistência.
Porém para mim a definição correcta é de crente.
É exactamente isso que eu sou: Crente, porque acredito em Deus. Não religiosa. Porque não sigo nenhuma religião.
E quero realçar que não significa com isto que não respeite as diferentes religiões, essencialmente as que melhor conheço. O Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo. Respeito-as e acredito que todas elas tem por base valores morais, bastante sagrados.
O que falha então? Porque me recuso a segui-las ? Porque acredito que a ganãncia dos homens e as suas fraquezas, são a razão do distanciamento das suas origens.
Cristo, ele próprio, quando pregava na Palestina, criticou aqueles que se afirmavam como representantes de Deus, e se afastavam do verdadeiro significado dos seus ensinamentos. Em consequência foi morto. Por desgustar as autoridades religiosas de então e teria sido morto hoje, se voltasse, pelas mesmas razões. Mesmo depois de morto, as suas palvras não tiveram o efeito desejado, “amaivos uns aos outros”, “ dêm a outra face” “amai o próximo como a vós mesmos”. Bem pelo contrário foram os seus ensinamentos utilizidas para nos dividirmos ainda mais. Apareceu uma nova religião : o cristianismo. E em nome desse extrordinario ser que nos encinou a ser benovelentes e a perdoar os outros, envolvemo-nos em guerras santas, com fins missionarios, criamos tribunais brutais “ a inquicição”onde as pessoas eram, torturadas, julgadas e condenadas a mortes horrendas por se afastarem das condutas morais dignas ou por se dedicarem a outros cultos. E a grande lição cristã: “ que atire a primeira pedra aquele que estiver completamente limpo”??
Posteriormente, aparece Mohammad, outro profeta, a quem é entregue por Deus um livro sagrado o “El Corão” . Nasce outra religião: o Islamismo. Esses textos mencionam a existência de duas outras religiões: o cristianismo e o judaismo.Religioões essas que os seguidores do islamismo deveriam respeitar, segundo o próprio El Corão. No entanto, outra vez a história prega-nos partidas e voltamos a ter guerras santas.
Cada uma destas três religiões, contribuiram e continuam a contribuir para diviisões dramáticas entre os povos.
Erguem-se Sinagogas, Igrejas e Mesquitas em vez dos tradicionais templos de portas abertas a quem quizer entrar.
Os Judeus são o povo escolhido.
Os cristãos acreditam que se nao forem batizados nao acedem ao céu. O que a ser verdade retira qualquer possibilidade aos outros crentes.
E os muçulmanos acreditam que só os islamistas acederão ao paraíso. Excluindo portanto todos os outros.
Ou seja podemos apercebermo-nos facilmente, sem grandes esforcos, sem necessitar trabalhos arduos de investigação que os fieis seguidores de uma religião, estão na sua grande maioria convencidos que essa é a religião certa.
Ora, partindo desse presuposto de superioridade, não será de admirar que se olhem de soslaio uns aos outros e que não se respeitem.
Sentimento esse que é muita das vezes aproveitado pelas altas hierarquias religiosas, das diferentes religiões, os quais seres humanos faliveis, se deixam levar pelas fraquezas da ganancia e desejo de poder, para incendiarem os seus fieis com ideais fundamentalistas, que se afastam dos ideais originais, mas servem as vontades Terráqueas.
Desde os tempos classicos até á actualidade, evoluimos do politeísmo para o monoteísmo. Mas aquilo que até hoje não conseguimos foi unificarmo-nos em volta desse Deus unico.
Na procura da essência de Deus, surgem cada vez mais seitas religiosas, mais divisões, mais certezas de superioridade.
Uma das vantagens que eu admito ter tirado da minha educação católica, em terna idade, foi o meu apreço pela filosofia cristã, onde apreendi, das passagens que segundo o novo testamento tera sido a vida de Jesus, uma moral, e uma ética extremamente valiosa. E por mais contraditório que pareça foi precisamente essa filosofia, cuja a minha interpretação, me fez afastar do catolicismo inicialmente e posteriormente me fez rejeitar a possibilidade de aceitar qualquer religião.
E por isso mesmo, resolvi hoje, ao fim de quase três decadas, escrever sobre algo que sempre me interessou imenso, mas que por cobardia e de certa forma por me sentir intimidada por aqueles que por “serem religiosos” ,se julgam detentores de Deus e nos apelidam de agnosticos, ateus ou infieis, não senti a coragem de o fazer antes.
Eu acredito em Deus, como um Deus unico, que simboliza a bondade, ao qual a palavra inglesa “God” esta mais apropriada pela sua proximidade com goodness. Os principios que me ligam a Deus, são principios morais como: honestidade, amor, comprensão, modéstia, solidariedade , tolerância....
A filosofia de vida que eu retirei das minhas leituras do “Novo Testamento” foi de que devemos respeitar-nos uns aos outros, não devemos julgar os outros sem antes nos julgarmos a nós, devemos perdoar em vez de condenar , etc, etc etc...
Uma filosofia muito dificil de seguir, devido às nossas fraquezas, mas que é sem duvida nenhuma, um caminho muito bem traçado e que nos conduziria com exito a seres humanos muito mais perfeitos.
Não tenho disso qualquer duvida. Por isso acredito que vale a pena tentar, mesmo com quedas, próprias da nossa natureza humana e mesmo que seja uma longa e infindável caminhada.
Não, não aceito ser apelidada do que quer que seja. Sou crente e só escolhi um percurso diferente. Acredito num Deus de todos e para todos. Um Deus que pela sua infinita bondade não tem preferências, não exclui.