Wednesday, May 6

O Jaime



Cresci numa zona rural pobre a 2kms do Porto. Onde viviam os meus avos, com quem eu passei grande parte dos meus primeiros anos e posteriormente, dos meus sete aos dezassete anos, quando os meus pais se mudaram para lá. Dos anos que ali vivi, tirei muitas lições. Mas a principal de todas foi a de respeitar qualquer pessoa e de que o seu valor esta intrinsecamente ligado ao que elas são e não ao que elas possuem. Percebi também que as “diferencas de clasess” são preconceitos sem fundamento. Naquela pequena povoação, eu era a filha do Sr.Americo, na escola que eu frequentava, era a criança dos arredores do Porto.

Hoje lembrei-me de um miudo vizinho, o Jaime.

O Jaime era um dos seis filhos de uma familia que ali vivia. Era um miudo giro, loiro com um bonito sorriso. Muito apreciado pela vizinhança pelas suas boas maneiras e timidez. A minha familia tem uma divida irreparavel para com ele, por ter arrancado a minha irmã do berço de um quarto em chamas, onde ja ninguém tinha a coragem de entrar. Na altura tinha talvez uns doze anos. Foi motivo de orgulho e assunto de conversa entre a vizinhança durante uns dias. Se fosse hoje, talvez tivesse direito a uma fotografia no jornal, a tratamento de heroi, quem sabe uma medalha....Mas há trinta anos atrás as coisas eram muito diferentes!

A familia do Jaime, conheci-a muito bem. Como aliás todas as familias daquela povoação. Coisas de terras pequenas, todos se conhecem. A mãe era uma mulher amargurada pela vida, uma moura de trabalho, que liderava a familia a pulso firme. O pai um homem que saia todos as manhãs com um passo certeiro e que voltava todos as noites cambaleando, calçada abaixo, embriagado pelo esquecimento. As rixas familiares eram constantes. Os gritos, alarmavam a vizinhança que corria a acudir, a desgraçada da mulher e as crianças. Era assim naquele tempo, há somente trinta e tal anos. Não se chamava a policia. Essa nada fazia nestes casos. Era a vizinhança que acudia, os homens para separar o enfurecido embriegado. As mulheres para prestar os curativos necessários e o conforto as crianças e á mulher: “ Ele é bom homem. Trabalhador. Mas a porcaria da bebida é que estraga tudo” E assim se consolava a familia.

Por volta dos meus dessasete anos mudei-me para outra casa e embora continuasse ligada a esta terra devido aos meus avós, raramente via o Jaime ou a familia dele. Ouvia sim as histórias que os meus avós contavam. Era um drogado, roubava tudo que podia das casas dos vizinhos, que continuavam a deixar as portas abertas, velhos hábitos de outros tempos. Os meus avós estavam convencidos de que ele estava implicado no desaparecimento de algumas das suas galinhas e coelhos! Da fama não se livrou!

Eu recordo-me da ultima vez que o vi. Um corpo esquelético, uma cara já sem o sorrriso que lhe era caracteristico, que tinha desaparecido entre uma boca que exibia uns dentes podres, acastanhados pelo terrível vicio...

E hoje arrependo-me de nesse dia, não ter tido a coragem de vencer a cobardia que me invadiu pelo choque de o ver naquele estado e não ter ido cumprimenta-lo, falar-lhe como o fazia com todos os outros antigos vizinhos e dessa forma, poder, nem que fosse por uns segundos, ter-lhe restituído a dignidade que ele perdera faz tempo. Não me perdou-o!


13 comments:

Alexa said...

Não imaginas como este comentário me é tocante por conhecer eu própria amigos assim e por eu depois de quase 2 décadas a viver nesse mundo só me consegui limpar com grande dor e sofrimente, agora há 10 anos que não consumo mas acredita nunca é tempo de mais.Sabes acho que te deves perdoar eu se estivesse no lugar dele preferia que não me falasses a humilhação é maior. Acredita.
beijos grandes.

ferreira-pinto said...

Lendo-a, compreendo-a!

No entanto, depois de ler o comentário anterior ... já nem sei. É que por vezes o opróbio que os jaimes deste mundo carregam, leva a que desejem ser invisíveis.

São said...

Sabe, penso que se´deve perdoar a si mesma!

Mas, se me permite, se voltar a acontecer ...cumprimente,então

Errar( e não sei se errou...) acontece, não se deve é repetir o mesmo erro.

Ah, a polícia fazia pior do que não intervir, dizia " se o seu marido lhe bateu, alguma razão há-de ter"

Bom fim de semana.

tagarelas-miamendes said...

Alexa- Felicito-a pela coragem e forca de vontade. Nao e' nada facil largar um vicio e dez anos ja sao uns aninhos!

Ferreira Pinto- Eu acredito que ninguem quer, verdadeiramente, ser invisivel e como tal continuo a nao me perdoar.
No fundo no fundo o que nos todos queremos e que nos respeitem e que gostem de nos.

Sao- porque sera que nao me espanta o seu conselho?
E sim pode se chamar erro. Foi erro mesmo! Porque as pessoas como o Jaime, ja estao habituadas a que as ignorem, a que as descriminem e o meu comportamento colocou-me lado a lado com os que se sentem superiores e no direito de julgar os outros.
Mas tem razao a unica coisa positiva que se pode tirar de um erro e' aprender com ele e nao voltar a repeti-lo e essa licao parece ter ficado bem dada...

O Árabe said...

Entretanto, não podemos voltar no tempo. E acredito que ele prefere que o lembres como o herói do salvamento; até porque não há como saber quanto do antigo Jaime nele teria restado. Não te condenes, portanto! Boa semana.

São said...

Venho para lhe desejar uma semana muito boa, porque o merece!
Beijinhos.

SILÊNCIO CULPADO said...

Este é um post que mexe com as emoções de quem o lê.
Eu entendo que o Jaime continua a ser um heroi. Alguém que foi capaz de arriscar a vida para salvar a da sua irmã.
No fundo dele próprio, nessas abas da sociedade onde se arrasta, ele ainda deve ter esses sentimentos de outrora. Porém não sei se ele preferia que lhe falassem. Os desviantes têm formas de sentir e analisar muito próprias. Por vezes não os conseguimos entender por mais que nos esforcemos.

Abraço

São said...

Venho desejar que tudo esteja bem consigo .

Não quer escrever sobre as crianças hoje? è o Dia das Crianças desaparecidas!

Beijinhos.

O Árabe said...

Boa semana, amiga. Aguardo o novo post!

São said...

Quando regressa?....

Forte abraço.

tagarelas-miamendes said...

Ola Silencio Culpado- Essa e' uma duvida que vou carregar comigo, mas continuo a acreditar que o deveria ter feito, porque qualquer ser humano merece o nosso respeito. Ele merecia que eu lhe tivesse falado, um simples ola.

São said...

Bom fim de semana e se puder votar, vote!

Um abraço grande.

São said...

Então, zogia, não inventa um tempinho?...

Que tudo esteja a seu contento.

Abraços.