
Fala-se muito da crise. A crise economica que abalou o mundo inteiro. Teve inicio nos EUA e atingiu-nos a todos, assim como uma especie de derrocada. Agora todos falam dela.
Apontam-se culpados. Quase sempre os mesmos: os governantes, os sistemas bancários, os empresários etc.etc.
Eu confesso que sei muito pouco de economia. Estudei economia politica, quando estudei direito, e lembro-me que era agradavel, ter que lidar com numeros, e ser obrigada a raciocinios logicos, por entre o emaranhado de codigos. Para alem disso, confesso, não é o meu assunto favorito.
Como tal é assumidamente no papel de uma leiga que me atrevo hoje a falar.
E porque o faço? Porque me choca ver o alarido que se faz á volta da chamada crise!
Somos todos ingénuos, cegos ou hipócritas?
Acaso precisamos que grandes doutores da economia nos venham explicar o que se passa?
Ora vejamos, parece-me a mim, uma leiga, que se vivemos, por exemplo com um ordenado de 1000 euros mensal ( que muitos há que vivem com muito menos, e esses sim ja viviam a crise mesmo antes da chegada dela) e gastamos 1500 euros, algo esta mal.
Tornamo-nos consumidores massivos. As nossas necessidades vão muito além das nossas possibilidades. Compramos tudo. Não possuimos nada.
Compramos a casa que por acaso ainda andamos a pagar e como tal ainda não é nossa. Compramos o carro que pagaremos em dois três anos e que provavelmente antes de terminarmos de o pagar o trocaremos por um outro que nos levara outros dois, três anos a pagar e assim sucessivamente.
A esta lista, juntam-se o mobiliário, os electrodomesticos, os telemóveis, as roupas, as férias......
Crise? Mas nunca, se viveu tão bem! Olhem á vossa volta! Bons carros, boas casas, boas férias, boas roupas..... Crise?
A verdadeira crise, com a qual me preocupo, verdadeiramente, é a que originou esta, é a crise de valores.
Nós não necessitamos de economistas miraculosos para nos explicarem ou resolverem a crise. Necessitamos, sim de pensadores, de filosofos revolucionários que sacudam as nossas mentes e nos apontem ideais.
Necessitamos de perceber que há valores com muito mais “valor” do que os valores materiais. A honestidade, a sinceridade, a dignidade, por exemplo.
As grandes empresas gastam quantias exorbitantes em consultores psicologicos, que nos arremessam com conceitos de: querer é poder; de como se pode ser um bom lider; de como ser bem sucedido na sua carreira profissional, etc.etc. Mas claro que não nos alertam para como nos iremos sentir destruçados e frustrados, após um empenho a 100% na carreira, e com a chegada da dita crise, quando nos defrontarmos com o despedimento e o desemprego.
Mas não são os mauzões do costume, os unicos culpados. Não, desta vez não podemos enterrar a cabeça na areia, temos que assumir as nossas culpas.
As familias por exemplo. Que valores passam os pais aos seus filhos?
Queremos que sejam os melhores! Em vez de os incentivarmos a darem o seu melhor. Queremos que escolham um bom curso, que lhes proporcione um bom emprego. Em vez de os ajudarmos a descubrir as suas verdadeiras aptidões. Encorajamo-los a ser competitivos, mas esquecemo-nos de os ensinar a partilhar e a ajudar.
A nossa etíca tem que ser repensada. Precisamos entender que a quantidade e a qualidade das coisas que possuimos não nos ajudam a valorizar como seres humanos. Que todos temos valor. Que necessitamos todos uns dos outros. Que o prestigio social não se pode avaliar pela posição hieraquica, mas pelo reconhecimento dos outros.
A nossa vida tranformou-se num pesadelo.
Temos que ser bem sucedidos, não chega sermos honestos e trabalhadores.
Temos que vestir as melhores roupas, não chega estarmos limpos e asseados.
Temos que possuir uma boa casa, não chega ter um bom lar.
Temos que dar tudo aos nossos filhos, não chega proporcionarmo-lhes uma boa vida.
Vivemos a correr. Matamo-nos a trabalhar, para conseguirmos ter uma vida melhor.
Não temos tempo para os nossos conjuges, para os nossos filhos, para os nossos parentes, para os nossos amigos, para nós próprios, porque nos dedicamos a 100% ás nossas carreiras profissionais, que são importantes porque nos proporcionam uma estabilidade financeira para podermos usufruir de uma quantidade de bens que serão de grande utilidade para os entes queridos para os quais não temos tempo.
Como se ja não bastasse aparece a malfadada crise. Com ela o despedimento, o desemprego e a penhora dos bens tão importantes á nossa vida.
Será que com a “crise” vamos aprender a perceber o que é que realmente tem valor?
2 comments:
Espero que a resposta à última pergunta seja apenas uma: SIM!
Porque, independentemente de a crise actual também ter no seu fermento muito de tibieza dos poderes públicos ante o poder económico, não menos certo é que muito do disparate que por aí se vive surgiu à conta de uma absoluta ausência de valores e referências.
As pessoas deixaram-se cegar pela necessidade de mostrarem que existiam através de bens materiais e, após se deixarem apanhar nessa vertigem, foi um nunca mais parar.
Se a tudo isso somarmos a necessidade de arrecadar cada vez mais dinheiro para nos permitir fazer face a um nível crescente de taxas e impostos, facilmente se compreende que se tenha deixado de ter tempo para a família, para ler, para ouvir ...
No caso português, penso que a anarquia que se vive na Educação há largos anos ou décadas também contribuiu de forma decisiva para o descalabro.
Muito bem colocado, amiga! Esperemos que a "crise" nos ensine algo, sim.
E saiba que a "tagarelice" fazia falta, Continue postando! :) Boa semana.
Post a Comment