
Ramadan Kareem

Muito embora este meu cantinho, tivesse começado por ser um refugio, o meu espaço para desabafos, de opiniôes, de partilha, onde eu protegida pelo meu anonimato pudesse ser realmente eu. A verdade é que em muitos dos assuntos em que me empolguei, fui deixando cair muito do anonimato a que me proponha.
E se continuo a ser a “tagarelas” e a não querer revelar a minha verdadeira identidade a verdade é que já aqui foi dito, que vivo em Jerusalem, que sou portuguesa, casada com um arabe e mãe de dois “luso-arabes”.
Por isso hoje resolvi, mais uma vez partilhar a minha experiência,de uma europeia de gema nestas terras arabicas.
Viveu-se durante este mês o Ramadão. Uma das celebrações mais importantes da religião muçulmana e que se traduz num mês de Jejum, sem comer ou beber desde o Alvorecer até ao Pôr-do-sol. Com excepção para os doentes, as grávidas, as crianças, mulheres durante o periodo menstrual e viajantes.
A grande maioria dos ocidentais encara esta prática com muita estranheza, mas mais uma vez estou convencida que se deve ao desconhecimento de uma cultura pela outra. A verdade é que o jejum é uma prática corrente em diferentes religiões. Jesus jejuou durante trinta dias no monte das tentações.
Já varias vezes afirmei que não sou religiosa, embora seja crente. E que tenho grande respeito por todas as religiões e simplesmente porque nunca assumo ser detentora da verdade.
Como tal eu não jejuo e embora o meu marido se considere muçulmano, não é religioso e também não o faz. Porém, enfeitamos a casa, colocando iluminaçao nas janelas, com os simbolos muçulmanos a estrela e a lua. E por curiosidade no Natal também fazemos a arvore. E tudo isto porquê? Porque queremos que as crianças sintam a magia do momento da mesma forma que nós, quando eramos da idade deles e em culturas diferentes.
E todos os dias, nos sentamos à mesa e jantamos à mesma hora, (cerca das 18h30), que todos os muçulmanos da vizinhança para quebrarem o jejun. As crianças esperam à janela, excitados pelo célebre “ Ala uakbar” vindo da mesquita mais próxima e correm para a mesa a gritar : já podemos, já podemos.
Para além disso durante este mês temos sempre uma agenda social muito mais intensa, porque chovem os convites para jantar em casa de amigos, ou em restaurantes, bem como saidas para eventos culturais que durante este periodo se realizam em muito maior numero, tais como concertos, festas, recitais de poesia, peças de teatro, etc.
O ramadão, não é só o sacrificio do jejum. É a festa da familia e dos amigos. São trinta dias de festins à volta da mesa, após o pôr do sol.
Outra caracteristica excepcional durante este periodo prende-se com o trânsito, que a apartir das 16h é caótico, no frenessim de chegar a casa e jantar a tempo. E de uma calmaria irrealista entre as 18.30 e as 19.30 em que as ruas ficam completamente desertas, sem um unico carro ou pessoa.
Para além disso o Ramadão é também por excelência o tempo para a solidariedade e fraternidade. Na televisão aparecem um numero sem conta de anuncios que apelam à bondade e á partilha.
É esse, aliás, o grande propósito do Jejum, sentir com os pobres, o desconforto da fome e não esquecer que uma das regras do corão é partilhar com os que precisam.
Finalizado o Ramadão seguem-se as maiores festividades muçulmanas, o EID. São quatro dias feriados, as familias juntam-se em almoçaradas festivas, vestem-se roupas novas, visitam-se os familares e amigos, trocam-se presentes ou pequenas quantias em dinheiro. Todo o comercio se mantem fechado durante os quatro dias com excepção de lojas de brinquedos, confeitarias e restaurantes.
As ruas enchem-se de pessoas e as crianças transmitem-nos a alegria do seu entusiasmo, com as suas fatiotas novas, os brinquedos com que foram presenteados e as guloseimas que carregam nos bolsos.
Em tempos em que se fala tanto sobre o islamismo, e quase sempre não pelos melhores motivos, espero ter conseguido transmitir um lado diferente da hitória. Eu, acredito que não há “religiões perigosas” o perigo começa quando o Homem actua em nome de Deus.
Ao longo dos séculos o poder andou sempre associado a Deus. Na Antiguidade os Faraos eram deuses na terra. Na idade média o poder dos reis provinha de Deus. Estes eram representantes de Deus.
E as guerras santas foram em toda a história da humanidade as que movilizaram maior numero de voluntários e as mais sangrentas.
4 comments:
Foi muito bom ler e assim aprofundar o sentido do Ramadão.
Como diz, o medo nasce da ignorância.
Tudo seria mais fácil se nos conhecessemos, não é?
Ou se, no mínimo, não partíssemos de pressupostos errados.
Fique bem com as suas crianças e seu marido.
Devemos procurar ter sempre, mas mesmo sempre, a necessária abertura de espírito para compreender aquilo que nos é diferente.
Como as realidades que aqui nos são retratadas.
Tudo de bom para todos.
Estranhas formas de demonstrar a fé...Belissimo texto...
Beijito
Venho convidá-la a visitar Chichen-Itzá no SÃO:
Beijinhos.
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