Friday, May 23

Elogio ao Avô

Elogio ao Avô

Hoje em dia, na nossa socieadade (ocidental) é vulgar desvalorizar-se a velhice. Os valores estécticos estão super-valorizados. Ser velho, significa estar fora de jogo. Arrumado para o canto. Por isso se gastam valores enormissimos em cirurgias plasticas que tranformam os corpos, em esculturas perfeitas. Mas não mais que isso. Corpos artificiais. Os velhos têm vergonha de ser velhos. E os novos têm vergonha dos seus velhos.

Eu pergunto aos da minha geração, porque as gerações mais novas não vão poder ter essas memórias, se não se lembram dos maravilhosos tempos que passaram com os seus avós? E atrevo-me a fazer esta pergunta, porque tenho a certeza que não fui uma priviligiada, mas ao contrário que a grande maioria dos adultos têm nas suas melhores memórias da infância os tempos passados com os avós.

A minha avó ainda viva é uma velhinha lindíssima. Marcada com as rugas do tempo e fragilizada pelos seus 91 anos, mas linda.

E o meu avô, que já nos deixou há uns anos, era não só um bonito velho, mas também um velho cheio de sabedoria, que soube acumular ao longo das suas oito décadas. É para ele que eu escrevo hoje, porque se não me cancei de lhe dizer durante a sua vida o quanto gostava dele, sinto que preciso de lhe dizer hoje, a falta que me faz.

A figura do meu avô é o meu modelo de homem. Um modelo tão elevado, que reduz todas as expectativas, a todos os homens da minha vida, de alcançarem o seu nivel.

Um homem do norte, filho de lavradores, conhecedor da dureza da vida, e que sabia aproveitar dela o melhor que ela pudesse dar. Sempre ligado à terra embora profissionalmente tenha optado por outras opções, os seus tempos livres eram passados nos campos e na criação de gado.

Um homem conservador e com uma escala de valores rectos e invioláveis. Em que a honra valia mais que a conta bancária. Amigo do seu amigo. Apreciava as pessoas não pela sua posição social, mas pelo seu caracter. Ouvio-o dizer tantas vezes: pobre mas de cabeça erguida. Um ser Humano formidavel. Não era homem para muitas conversas, mas estava sempre pronto para dar uma lição de vida.

Na entrada da casa dos meus avós havia um azulejo que dizia:” Cá em casa manda ela, mas nela mando eu”. Eu lembro-me que aquele azulejo me irritava profundamente, quando era jovem. Mas mais tarde, percebi que não tinha qualquer significado, porque me lembro com muito agrado, da forma como o meu conservador avô tratava a minha avó, sempre com respeito e até muita paciencia. Ela era a constante resmungona, muito querida também, mas o tipo de mulher que resmunga, resmunga e ele sempre calmo e amorosso com ela.

Mas ele era assim com todos, muito severo com ele próprio e muito condescendente com os outros. Um amante da privacidade. Da dele e da dos outros. Politicamente? Nunca nenhum de nós conseguiu saber quais as suas preferências. O voto é secreto, respondia-nos. Religião? Nem sequer sei se era crente. Nunca nos disse. Não era homem de ir á igreja. Mais do que isso? Nenhum de nós pôde perceber.

Mas o que mais me marcou no meu avô, foi o seu amor sem limites pela minha pessoa. Nunca ninguem mais me amou como ele. Um amor sem regras, sem limites. O meu porto seguro.

Cada vez que alguem me falhava eu recorria a ele. E ele sem interrogar as minhas atitudes. Estava sempre disponivel e pronto a acolher-me. Durante a minha adolescência atribulada, em conflito constante com um pai intransigente e eu uma dolescente rebelde e inconformada, muitas vezes necessitei da ajuda daquele que sem perguntar nada, sem fazer qualquer julgamento de valores me abria as suas portas e me abrigava debaixo das suas asas: o meu avô.

Este homem amou-me como nunca nenhum homem o fez. Para ele eu era sempre a criança inteligente que ele admirava. Não lhe dei o prazer de terminar o meu curso de Direito, mas nunca lhe li nenhum sinal de decepção, por não o ter feito. Este homem amou-me por mim própria, sem pre-conceitos. Com as minhas qualidades e os meus defeitos. Nunca ninguém me tinha amado assim e estou certa que nunca ninguém me amara da mesma forma. Por isso no dia em que o perdi, perdi muito mais que um familiar querido, perdi o meu “porto seguro”. Percebi que nunca mais estaria completamente protegida.

O que me ficou dele? Foi a lição de vida. A passagem de valores. E sobretudo que vale a pena amar. Que o amor é uma espécie de semente, que se cuidarmos bem, podemos colher excelentes frutos.

10 comments:

Tiago R Cardoso said...

Tenho que reconhecer que depois de um momento como este, poucas palavras se podem dizer, excelente.

São said...

Que Deus te abençoe!
E o teu avô, só pode estar bem, onde quer que se encontre!
Belo regresso, este teu.
Semana feliz, linda.

C Valente said...

Saudações amigas

Hermínia Nadais said...

Que lindo, Amiga! Como me encanta ouvir falar assim de um avô!
Eu nunca soube o que é ter um avô, pois todos os que poderia ter partiram cedo.
Em pequena, ficava muito triste qwuando via os meninos da minha idade com os avôs... que eu já não tinha.
Agora... compreendo que afinal tenho os meus avôs num mundo que ainda desconheço.
Que eles nos protejam!

Suzana com z said...

é de facto uma benção. tens sorte amiga. um beijo de saudades

O Árabe said...

Belo post, bela homenagem! E eu me lembro, sim, do nosso respeito aos mais velhos... :)

São said...

Estive aí perto de ti e enviei-te o meu abraço.
Feliz fim de semana.

C Valente said...

É bom por aqui passar
Saudações amigas

JOY said...

Tagarelas

Gostei do Texto.
Passei para te cumprimentar e desejar um bom domingo


Fica bem
JOY

*¨*Ellaehcarioca*¨* said...

Interessante você tocar nesse assunto.O que a gente vê hoje é tanto desrespeito e descaso com idosos.Você falando do seu avô,me lembrou o meu,que também já se foi,mas foi um ser humano inesquecível.Uma pessoa linda que me ensinou, desde fazer joguinho dos 7 erros no jornal até os valores que eu tenho hoje.
Deixou muitas coisas boas que compensam a saudade,assim como o seu.Tão bom ter essas pessoas nas nossas vidas,né?
Bjs:)