
Acordei as 6.30 da manhã como habitualmente, mas logo me apercebi que essa não era uma manhã normal. Os meus pais em vez de andarem atarefados com a rotina da manhã, estavam os dois imóveis, na cozinha, pregados ao radio.
Eu tentei perceber porquê, mas sem exito. Fui interrompida pelo tom dominador da voz do meu pai: Chu! Deixa ouvir.
Resolvi não ligar e tomar o pequeno almoço. Afinal estava quase na hora de ir para a escola e parecia que eu era a unica que hoje me importava com isso.
Depois fui apanhando uma coisinha aqui, outra ali, que me começou a deixar preocupada - ... Vai dar em guerra..., Será que é boa ideia mandá-la para escola?....
Eu tinha onze anos e já percebia o significado da palavra guerra. O meu avô contava-me histórias do tempo da guerra em que tinham que ir para a fila do pão. E eu sabia que na guerra morriam muitas pessoas. O meu tio tinha estado na guerra em Angola. E tinhamos um vizinho a quem chamavam o “ Chico da India” que tinha vindo maluco da guerra. Por isso comecei a ficar preocupada.
Os meus pais acabaram por decidir que a minha mãe me levaria à escola e que depois logo se veria. Durante o caminho, consegui que a minha mãe me explicasse, que embora não soubessem muito bem o que se estava a passar, parecia que tinha havido uma revolução em Lisboa. Revolução era uma palavra nova, mas quando a minha mãe me explicou que os militares tinham o Marcelo Caetano prisioneiro. Percebi a gravidade. Até porque eu sabia muito bem quem ele era. Tinhamos uma fotografia dele na sala de aulas e ele costumava aparecer na televisão. Coitado, fiquei cheia de pena dele, era uma pessoa simpática, tinha um bonito sorriso e uma vez, no ano anterior, ainda eu andava na 4ª classe, fomos os alunos todos da escola, todos embonecados, e segurando uma flor, ve-lo passar na rua da Circunvalação.
Fiquei na escola, as professoras e a directora, todas alburaçadas aconcelharam a minha mãe a deixar-me e asseguraram que se as coisas piorassem nos mandavam mais cedo para casa. E assim sucedeu.
Do dia 25, são estas as minhas recordações. Mas as que realmente me marcaram, foram as que se seguiram, a libertação dos prisioneiros politicos, o reencontro deles com as as suas familias. As histórias terriveis que contavam, das torturas da PIDE. As perseguições aos familiares. A Euforia das pessoas nas ruas, cantando e gritando liberdade. E a descoberta do que era a politica, a liberdade, a democracia. Tudo isto aconteceu aos onze anos, mas influenciou imenso a minha adolescência e a minha maneira de encarar o mundo.
Hoje passados estes anos todos, continuo a ficar com os pêlos em pé quando ouço a “Grandola Vila Morena”, continuo a recordar os testemunhos daqueles que sofreram a injustiça da tortura, por se manifestarem contra o Governo e sinto um orgulho Universal por termos tido essa sorte sem a tal “ guerra” que os meus pais tanto temiam.
Por isso, respeitando todas as opiniões, não consigo perceber que algumas personagens públicas, não dêm o devido valor ao cravo. O simbolo da revolução.
Porque ao contário do que eles apregoam este não tem qualquer conotação politica. Uma florista, entusiasmada, distribuiu-os e os soldados contagiados pelo gesto, colocaram-nos no cano da arma. Quem não percebe a beleza simbólica desta accão, também não deve perceber o significado da Paz
12 comments:
Minha querida, há quem não goste de liberdade e quem ainda ponha gravata negra, como o pide òscar Cardoso.
Mas a Democracia está aí para ficar!
Viva Abril!
Conheço a florista!
Viva Abril!
A liberdade... eis o maior dos nossos valores. Sempre!
Muito bem, enorme texto e enorme testemunho.
Também eu não entendo a desconfiança que muitos tem sobre os sim bolos de Abril, afinal pouco politico tinham, eram unicamente o povo.
Venho desejar-te semana de paz e serenidade, linda!
Abraço-te.
Fico feliz por este post feliz que recorda Abril e que vê na liberdade e na esperança uma orientação de percurso.
Abraço-te, amiga
Queridos amigos,
Obrigada pelos vossos comentarios.
E a todos que aqui me visitaram e amavelmente deixaram a sua opiniao, so tenho a dizer que ja tinha adivinhado, pelo que nos vossos blogs li que davam valor `a liberdade. Um dia quem sabe, conseguiremos um Mundo melhor.
Venho desejar-te um feliz feriado!
Abraços.
Que te encontres muito bem e tenhas feliz final de semana, linda!
Um abraço.
Olá
Estava a lêr o teu post , e o meu dia 25 Abril de 74 foi muito parecido com o teu,também eu hoje me arrepio quando ouço o Grandola Vila Morena.
Fica bem
Joy
Hoje, apenas para desejar uma boa semana! :)
Vim só abraçar-te!
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